O realismo mágico da Sununga

Nosso editor Lucas Conejero escreve sobre as lendas do místico point ubatubense

por Lucas Conejero, 09/10/2018
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O Divino sempre diz que não tem erro. “Mas como chega lá? Não é possível ser assim”, a galera invariavelmente responde. Claro que é. Confia no Divino: direita, esquerda, direita, esquerda, direita, esquerda, direita, esquerda. Uma hora chega. E nem demora muito.

Uma vez na Sununga e você se transforma. Sei lá, não dá para explicar, o pico tem um lance, um astral e cria uma relação de respeito e admiração instintivos. O clima é doce, com aquele ar de melancolia e sabedoria dos caiçaras. Natural mystic blowing through the air, Bob Marley, aquela coisa.

Dois belíssimos morros onde os mais coloridos pássaros da Mata Atlântica dividem espaço com lagartos e mosquitos a protegem das rajadas mais fortes e das tempestades, que vez por outra fazem estrago nos resistentes coqueiros e chapéus de sol à beira mar.

Nos últimos anos as coisas ficaram ainda mais animadas por lá. Exibida, a Sununga descobriu que dá para paquerar e seduzir as pessoas pelas redes sociais.

Esperta, sagaz e empoderada, é uma legítima influencer social e ajuda a colocar comida na mesa de muita gente. Uma postura tipo: se vocês em política fossem como são em estética, estaríamos feitos.

E isso que eu nem contei ainda do Dragão que mora por lá, na gruta que chora. Sim, tem uma gruta no canto esquerdo da Sununga e ela chora lágrimas de amor e solidão. Em silêncio, a cada onda que estoura na areia, é possível ouvir seus lamentos.

Alguns milhares de anos antes das batalhas entre as fileiras portuguesas e da Confederação dos Tamoios, um dragão escolheu a Sununga para viver. Sedutor, conquistou a mais cobiçada caiçara da região. À noite, disfarçava-se de homem para encontrar a moça.

Mas a mãe da jovem conspirou contra o amor e a levou para longe. Desde então, ele nunca mais saiu da gruta. Restaram apenas a tristeza, expressa pelas lágrimas, e a ira, expressa pelas ondas.

Nesses dias de revolta, os novos guerreiros locais assumem o protagonismo e desafiam o ódio. O lema deles é simples: “aqui ninguém arrega, não, quando o bagulho tá grande os moleques ficam sinistros também”.