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Em entrevista exclusiva, Guilherme Pollastri, vice-presidente da CBSurfe, comenta o litígio jurídico na entidade às vésperas do ciclo olímpico

por Redação Almasurf, 29/01/2019
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Vice-presidente da Confederação Brasileira de Surfe, Guilherme Pollastri divulgou recentemente um manifesto assinado por 346 surfistas.

O documento é uma resposta à uma nota do presidente da entidade, Adalvo Argolo, enviada à imprensa e é mais um capítulo de um lamentável litígio entre os dirigentes, às vésperas do início do primeiro “ciclo olímpico” da história do surf brasileiro.

A moção de apoio ao vice-presidente destaca a “precariedade e as irregularidades das gestões sucessivas de Adalvo”, fatos que, segundo ele, “prejudicaram o desenvolvimento do esporte e a formação dos atletas” nos últimos anos.

Ainda de acordo com o texto, o movimento liderado por Guilherme, licenciado do cargo por vontade própria desde o início de 2018, pretende apresentar uma proposta de reestruturação administrativa da entidade.

A chapa Argolo-Pollastri foi eleita em dezembro de 2016 para um mandato de quatro anos. Mas não houve o entrosamento necessário entre os dirigentes e o ápice da crise aconteceu em setembro do ano passado, quando a CBSurfe não cumpriu os trâmites necessários e a delegação brasileira acabou fora do ISA Games do Japão.

Em dezembro, Guilherme entrou com um pedido oficial de afastamento de Adalvo, acatado pela Justiça Federal de Brasília, e o imbroglio estende-se até hoje. Na última sexta-feira (25/1), a liminar foi suspensa parcialmente pela desembargadora Daniele Maranhão do TRF e Argolo retornou ao cargo.

Na entrevista abaixo, concedida com exclusividade para a Almasurf, Pollastri critica duramente a gestão de Argolo e afirma ser isento e ter reputação ilibada para gerir uma necessária e transparente reformulação da CBSurfe, mesmo réu em um processo de improbidade administrativa da Operação Zelotes e de responder a outro processo onde é acusado de ser um funcionário fantasma da Companhia das Docas do Rio de Janeiro.

AS O senhor é o atual vice presidente da Confederação Brasileira de Surfe. Qual exatamente é o seu currículo no surfe? Quais foram as realizações que lhe garantiram as condições necessárias para ocupar um cargo tão importante na hierarquia do surfe brasileiro, principalmente neste período que antecede a primeira participação do surfe nas Olimpíadas?

GP Sou surfista desde desde os sete anos, quando ganhei minha primeira prancha. Na adolescência, não competia muito. Não tive o apoio necessário e meu surf não encaixava em ondas pequenas e ruins, condição da maioria dos campeonatos. Só fui me dedicar às competições depois que virei master. Aí conquistei bons resultados e ganhei alguns campeonatos. Mas, em compensação, me dediquei no surfe de ondas boas e constantemente faço viagens internacionais, sempre atrás dos melhores picos do planeta.

Como sempre vi o surfe como um esporte extremamente amador em termos de administração, ajudei a Associação de Surfe da Prainha e a FESERJ nos últimos anos como colaborador. Mas na época que o SuperSurf estava com um circuito extremamente competitivo e bem organizado, levei o Pedro Muller e Marcelo Andrade (dirigentes da ABRASP) na CBV para uma conversa com o CEO, com o intuito de elevar o nível da administração e profissionalizar a sua condução.

Quando o Rosaldo me apresentou o Adalvo, vi a oportunidade de finalmente transformar a confederação na melhor do Brasil em termos de gestão e transparência. E foi exatamente o que vinha fazendo: refiz o estatuto adequando as regras do COB, Ministério do Esporte, da ISA e da legislação vigente. Antecipei a eleição para adequar ao ciclo olímpico, defini os ativos da CBsurfe para vender no mercado, me aproximei do Ministério, do COB, da ABRASP, da ISA e do Pacto pelo Esporte.

Só que o Adalvo seguia na administração financeira e fiscal da confederação, tinha uma aproximação com as federações e sempre postergava ou inventava justificativas para não fazer o que era necessário.

Diante da minha insistência, ele e Rosaldo Cavalcanti (diretor técnico da CBSurfe) começaram a se fechar e tocar a confederação como se fosse deles, sem prestar contas, sem fazer as reuniões previstas no estatuto, sem nomear diretoria, nem conselho consultivo, sem conversar com os atletas e federações, sem dialogar com o Ministério, WSL, ISA e ABRASP. Ou seja, a CBSurfe virou uma confederação de duas pessoas, contrariando frontalmente o estatuto e a Lei.

Diante disso, não poderia dar outro resultado e começaram os absurdos: não aderiram ao Pacto pelo Esporte, deixaram acontecer dois circuitos profissionais brasileiros ao mesmo tempo, não enviaram a delegação brasileira para o campeonato mais importante da modalidade (ISA Games), não aprovaram as contas, não enviaram um documento sequer aos conselheiros fiscais e não aprovaram as contas na assembléia geral, inventaram uma sede fantasma, dentre tantas outras atrocidades.

Então me posicionei e fiz uma notificação extra-judicial ao presidente para que regularizasse as situações apontadas e me mostrasse a contabilidade com todas entradas e saídas de dinheiro devidamente explicadas. Foi quando ele, em resposta, se negou a fazê-lo e passou a me ameaçar.

Diante disso, não restou outra alternativa senão fazer o que estava ao meu alcance para afastar estas pessoas que vinham conduzindo o surf em um momento tão importante.

AS Como atual vice-presidente da confederação, o senhor entrou com três ações na justiça contra a Cbsurfe. Sendo que uma delas no Comitê de Ética do COB. Apuramos, inclusive, que uma dessas ações já foi arquivada por falta de provas. Você pode comentar as acusações que faz ao atual presidente da entidade?

GP Na realidade foi uma ação na Justiça Federal em Brasília, uma no Ministério do Esporte e outra no COB. Na Justiça Federal, conseguimos seu afastamente imediato (revertido no último dia 25), a transferência provisória da sede para o meu escritório no Rio de Janeiro e de toda documentação fiscal no prazo de 48 horas sob pena de multa diária.

No Ministério do Esporte, foi suspenso o certificado da CBSurfe, o que a impossibilita de receber qualquer verba pública. E no COB, realmente, em uma decisão absurda, que deverá ser revista, o processo foi arquivado. As acusações mais graves são de gestão temerária pela falta de transparência e prestação de contas, pela não nomeação de diretores e conselheiros, dentre outras.

AS Entre as denúncias citadas acima, o senhor acusa o atual presidente da Cbsurfe de gestão temerária e improbidade administrativa. No entanto, a Almasurf apurou que o senhor é réu numa ação de improbidade administrativa na operação Zelotes, deflagrada pelo Departamento de Polícia Federal em 2015, visando investigar indícios de atuação coordenada de agentes públicos e privados no âmbito do Conselho de Administração de Recursos Fiscais (CARF) com o objetivo de favorecer empresas em débito com a Administração Tributária. Nesta ação, o senhor está sendo acusado, como ocupante do cargo de Conselheiro do Conselho de Administração de Recursos Fiscais do Ministério da Fazenda, de ter violado os deveres de honestidade, imparcialidade, legalidade e lealdade em relação à Administração Pública. Diz a denúncia que o senhor envolveu-se em negociações obscuras que tinham por objetivo a concretização de um fantasioso e desnecessário pedido de vista nos autos do processo administrativo e que isso redundaria no retardamento da sua conclusão. O que você tem a dizer em sua defesa?

GP A operação desencadeada no CARF levou a prisão vários conselheiros, após profunda investigação com quebras de sigilo telefônico e fiscal. Na época dos fatos, o MP sequer chegou a me denunciar à Justiça Federal.

Quando fui intimado, demonstrei que não só não tive acréscimo patrimonial, como apresentei decréscimo patrimonial no período, que nunca tive conta no exterior, que os diálogos não tinham qualquer conexão com a acusação inicial e que depois de julgar mais de três mil processos, ser acusado de um suposto pedido de vistas que nunca ocorreu não fazia nenhum sentido.

Esta acusação da PGR é muito frágil e tenho muita fé e esperança que mais uma vez se faça justiça e eu seja excluído desta demanda - no mínimo seja julgado inocente.

AS Além da ação de improbidade administrativa, o senhor também responde à outra ação movida pela Companhia das Docas do Rio de Janeiro, na qual deverá apresentar, junto com a sua defesa, os controles de frequência e recibos de pagamento e variação salarial do período trabalhado, sob as penas da lei. O senhor pode comentar essa acusação?

GP Eu trabalhei efetivamente e diariamente na companhia neste período. Porém, com a troca da diretoria fui demitido e todas as verbas indenizatórias foram calculadas pela própria empresa. Ano passado, fui surpreendido com esta ação, que é uma coisa que em toda minha vida acadêmica nunca tinha visto.

A empresa dispensar o empregado, pagar as verbas indenizatórias e depois contestar seus próprios cálculos realmente é inédito. Mas vou me defender certamente e acatar o que a justiça decidir.

AS Mesmo sendo alvo desta outra ação, o senhor considera-se isento e com reputação ilibada para gerir uma necessária e transparente reformulação da CBSurfe?

Certamente que sim, quem me conhece sabe que sou família, sou do bem e nunca compactuei com qualquer tipo de irregularidade ou falcatrua e tenho plenas condições em executar esta reformulação da CBSurfe.