Som, Sol e Surf

Enquanto uma kombi ardia em chamas, a hipongada chegava à outra dimensão, Saquarema em transe cantava Viva a Sociedade Alternativa

por Lucas Conejero, 12/02/2019
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Ontem tive uma experiência sensorial e temporal na sala da minha casa enquanto assistia o documentário do Helio Pitanga sobre o Som, Sol e Surf, festival produzido por Nelson Motta e uma galera muito louca, em 1976, em Saquarema.

O evento reuniu contra-cultura, surf e rock numa tentativa frustrada de promover uma versão brasileira do Woodstock na mística cidade da região dos lagos. Segundo o próprio Nelsinho, o viés comercial não deu muito certo, mas o festival foi, muito provavelmente, a maior reunião de malucos da década no Brasil.

Desde adolescente muita gente me fala: cara, você nasceu na época errada. E eu concordo. De fato, eu nasci na época errada. Os motivos, neste texto, não vêm ao caso. Posto isso, quando vejo cenas das décadas de 1960 e 1970 no Brasil acabo me transportando no tempo.

Ontem não foi difícil. Cheguei de uma aula pesada da Else Lemos sobre identidade, reputação e gerenciamento de crises institucionais a mil por hora. Dormir rápido e cedo em dias de pós é quase impossível. Telefone, às 10 da noite, já enjoou. A morte do Boeacht me abalou um pouco também. Era um dos nossos. Queria dar uma desencanada de notícia.

Então dou aquela sapeada nos canais e dou de cara, no Curta, com o filme do Pitanga, que recuperou as imagens (quase) perdidas e esquecidas no armário do diretor Gilberto Loreiro. Havia visto a chamada nas últimas semanas e estava ansioso, mas não lembrava a data da estreia.

Essas imagens só existem porque o lance todo era para ser uma espécie de “Woodstock”, era para ter filme e disco, como a versão original. Deu tudo errado e não saiu nem um, nem outro. Mas as captações foram feitas, são bárbaras e me conduziram pelo túnel do tempo da história.

Rita Lee e Raul Seixas eram as principais atrações do line up. O Festival de Surf incrementou a programação. Daniel Friedman foi o campeão, de monoquilha, em altas ondas. As passagens retratam todos os tipos possíveis da época, inclusive muitos negros. A rapaziada invadiu a cidade, que dobrou de população. Cerca de 20 mil pessoas marcaram presença.

Colapso total de abastecimento, gente vagando pelas ruas, muita droga psicodélica na cabeça, o caos libertário tradicional das Zonas Autônomas Temporárias. Já leu TAZ? “A máquina de guerra nômade conquista sem ser notada e se move antes do mapa ser retificado”, diz Hakim Bey.

Reza a lenda que a ditadura não prendeu todo mundo porque era gente demais. Além disso, assim como os milicos, a “esquerda oficial” não via com bons olhos toda aquela liberdade e o festival estava, de certa forma, desvinculado do “combate oficial” ao regime. Passou batido.

Vou parar por aqui para não dar “spoiler”. O que eu queria mesmo era ter ido no show do Raulzito. Enquanto uma kombi ardia em chamas, a hipongada e a galera prog chegavam à outra dimensão, Saquarema em transe cantava Viva a Sociedade Alternativa.