Ana Catarina com o pé na porta

Cresce a cada dia o número de mulheres fotógrafas de surf e a série Minas ao Mar vem para apresentar seus trabalhos e contar um pouco das suas histórias

por Lucas Conejero, 11/03/2019
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Há alguns anos, era difícil imaginar uma mina com uma caixa-estanque, em baixo do pico, num dia grande, em Regência, na Barra da Tijuca, em Maresias ou na Cacimba, certo? Não é mais!

Em um segmento machista como o surf, um seleto grupo de mulheres rompeu os paradigmas do preconceito e conquistou seu espaço com coragem, talento e determinação.

Esse é mais um capítulo do big swell de empoderamento feminino dos últimos anos e a série Minas ao Mar vem para apresentar os trabalhos das fotógrafas brasileiras da modalidade e contar um pouco das suas histórias.

Para a estreia, a equipe da Almasurf escolheu a carioca Ana Catarina, vencedora do Surfmappers SurfArt, concurso promovido pela startup de vendas de fotos de surf online que premiou, através de uma votação online, o melhor clique produzido no Brasil.

Ana nasceu e viveu no Rio de Janeiro, principal surf city do litoral brasileiro. Com 36 anos de praia e seis de profissão, a jornalista confessa ser uma surfista frustrada, mas que sempre admirou e acompanhou a cultura do surf e seu crescimento.

Segundo a ex-atleta profissional de futebol, o machismo nunca foi um empecilho e a união das mulheres neste momento da história é fundamental para o encorajamento mútuo.

“Sou acostumada com o machismo em geral. Joguei durante anos pelo Fluminense e sempre lidei muito bem com esse lance de “esporte de menino”. O que me move na fotografia de surf é realmente o amor que sinto pelo que faço. O que é o machismo perto disso?”, questiona a fotógrafa.

AS Como e quando o surf passou a fazer parte da sua vida?

AC Desde adolescente, sou uma surfista frustrada, meus amigos não surfavam, eu não morava tão perto da praia, mas sempre admirei e acompanhei a cultura do surf. Fiz faculdade de educação física e o esporte em geral faz parte da minha vida. Quando me vi fotografando de dentro d’agua e participando da adrenalina do esporte, foi como se eu tivesse surfando.

AS

 Como e quando surgiu sua paixão pela fotografia? Estudou ou é autodidata?

AC Fiz meu primeiro curso de fotografia em 2008. Só queria tirar umas fotos melhores nas minhas viagens de férias e entender minimamente os mecanismos de uma câmera DSLR. De lá pra cá, fiz inúmeros outros cursos, direta ou indiretamente ligados à fotografia, buscando sempre evoluir. Não curto muito falar autodidata, a fotografia é muito além de técnica para mim. Mais ou menos em 2011 veio o desejo de ter uma caixa para a câmera, mas não era comum. Eu não sabia nem o nome para procurar no Google. Até que nessas buscas achei o workshop de fotografia de surf do Sebastian Rojas. Foram dois anos tentando até quem em 2013 consegui ter essa experiência incrível.

AS Qual foi o maior perrengue que você já passou na água?

AC Sempre tenho medo de morrer no mar. A gente entra sem saber se vai sair. Respeito muito o mar e meus limites, mas muitas vezes as coisas não saem do jeito que esperamos. Já tomei bons caldos que achei que não voltaria mais. Mas cá estou eu, firme e forte! O lance é manter a calma e focar na respiração.

AS E o melhor mar ou o mais “memorável”, qual foi?

AC Sem dúvida alguma foi Regência em julho de 2018. Por toda a experiência de estar nessa meca do surf brasileiro, ver essa onda renascendo após o desastre de Mariana e os infinitos tubos que assisti de camarote esse dia.

AS O surf é um ambiente tradicionalmente machista. Foi mais difícil conquistar seu espaço?

AC Sinceramente, nunca foi algo que me preocupei. Sou acostumada com o machismo em geral. Joguei futebol por anos pelo Fluminense e sempre lidei muito bem com esse lance de “esporte de menino”. O que me move na fotografia de surf é realmente o amor que sinto pelo que faço. E acho que quando transparecemos esse sentimento e satisfação, o que é machismo perto disso?

AS Como você avalia o crescimento do número de mulheres no segmento da fotografia de surf, principalmente dentro da água?

AC Acho que rola um movimento de união feminina em geral no mundo hoje em dia. Ver outra mulher atuar é uma forma de levar coragem para outras mulheres experimentarem e sentirem-se capazes também. Ainda é pequeno o número de mulheres no meio da fotografia de surf, mas tem sido sensacional ver esse número crescer, mesmo que em progressão aritmética.