A dois passos do paraíso

Criada no Guarujá e radicada em Fernando de Noronha, a fotógrafa pioneira Michele Roth escolhe a boa na série Minas ao Mar

por Lucas Conejero, 19/03/2019
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Há alguns anos, era difícil imaginar uma mina com uma caixa-estanque, em baixo do pico, num dia grande, em Regência, na Barra da Tijuca, em Maresias ou na Cacimba, certo? Não é mais!

Em um segmento machista como o surf, um seleto grupo de mulheres rompeu os paradigmas do preconceito e conquistou seu espaço com coragem, talento e determinação.

Esse é mais um capítulo do big swell de empoderamento feminino e a série Minas ao Mar vem para apresentar os trabalhos das fotógrafas brasileiras da modalidade, além de contar um pouco das suas histórias.

A segunda personagem da série é a paulista Michele Roth. Criada no Guarujá e radicada em Fernando de Noronha, a fotógrafa pioneira teve seu trabalho exposto no Festivalma deste ano e vem se destacando na cobertura das boas ondulações que encostam no arquipélago.

“Em 2008, quando comecei a fotografar o surf de dentro da água, muitas pessoas se impressionavam e comentavam que nunca tinham visto uma mulher no line up da Cacimba”, conta Roth.

AS Como e quando o surf passou a fazer parte da sua vida?

MR Cresci descendo a serra todos os finais de semana, férias e feriados para o Guarujá, desde recém-nascida. No meu aniversário de 14 anos, pedi um bodyboard de presente. A partir daí, a conexão com o mar e com o surf só se fortaleceu. Não conseguia me sentir bem se não estivessem presentes na minha vida. Virou uma necessidade básica para viver feliz.

AS Como e quando surgiu sua paixão pela fotografia? Estudou ou é autodidata?

MR Nunca tive equipamentos de fotografia profissionais, mas sempre que fazia alguma viagem levava uma câmera Olympicus analógica e curtia fotografar e eternizar os momentos especiais. Quando cheguei em Noronha, vi a possibilidade de trabalhar com fotografia subaquática e fotografar os turistas durante o mergulho. Assim, uniria duas paixões: a fotografia e o mar. Sou autodidata, nunca fiz um curso, aprendi tudo na prática. Na época, ainda utilizávamos um equipamento analógico e, por ser em um ambiente aquático, foi uma experiência bem desafiadora e importante para me ajudar a chegar até aqui. Fiquei oito meses trabalhando com fotografia sub e quando saí comprei uma Canon Rebel Xt. Então, comecei a fotografar a natureza em Noronha e se tivesse alguma oportunidade de trabalho não deixava de fazer. Aos poucos, fui aprendendo cada vez mais e todos os trabalhos que surgiam eu fazia. Assim juntei uma grana para investir em equipamentos.

AS E a paixão pela fotografia de surf começou como?

MR Comecei a fotografar surf dentro da água em 2008, quando comprei uma caixa estanque para minha câmera. Na mesma época, comecei a surfar de prancha. Decidi aprender a surfar de prancha, pois pensei que se aprendesse a surfar de prancha em Noronha iria poder surfar em qualquer lugar do mundo. Como gostava de surfar de bodyboard em mar grande, acabei aproveitando para fotografar quando o mar estava grande e surfava quando o mar diminuía. A segurança que o bodyboard me trouxe em mares grandes me ajudou muito a ter traquilidade na fotografia de surf aquática. Também fiz um curso de apneia com o Christian Dequeker, importante na preparação para encarar os mares ainda maiores. Sempre me sinto muito à vontade no mar, mesmo nos maiores dias na Cacimba do Padre. O maior mar que entrei para fotografar tinha séries de até 4 metros, lá na laje.

AS Qual foi o maior perrengue que você já passou na água?

MR Estava filmando para produzir o documentário Locais de Noronha e resolvi cair com uma máscara para poder fazer umas imagens das ondas embaixo da água, no estilo Jack McCoy, na praia do Bode. O mar estava clássico, altas ondas em uma água cristalina incrível e fiquei viajando, olhando as ondas. No fim, tomei uma bomba na cabeça e o lip prensou minha lombar na areia. Senti o estralo na minha coluna quando encostei a barriga na areia e pensei que tinha acontecido algo bem grave quando cheguei à superfície. Pedi ajuda para um surfista que estava próximo para me levar ao outside e, felizmente, nada grave aconteceu. Mas durante alguns meses precisei fazer massagem, acupuntura e terapias para a dor. Foi um susto bem grande. Se eu tivesse me desesperado, poderia ter ocorrido algo mais grave.

AS E o melhor mar ou o mais “memorável”, qual foi?

MR Tenho certeza que sou muito privilegiada por ter como “escritório” a Cacimba do Padre, o Bode, o Boldró e a Conceição. Já perdi a conta de quantos mares clássicos eu fotografei. Mas dois momentos únicos me marcaram. Um deles foi em uma época do Hang Loose há alguns anos atrás. O mar estava clássico um dia antes do campeonato, altas ondas de um azul cristalino, vibrante, rolando um som massa no palanque e os surfistas profissionais representando no free surf. O mar parecia realmente um paraíso na terra. O outro nessa mesma época rolou na praia do Bode, praticamente na frente da pedra. Nunca tinha visto essa onda quebrar tão na frente da pedra. E no outside havia vários surfistas profissionais, entre eles o Fabio Gouveia. Nesse dia, eu fotografei junto com um dos meus mestres da fotografia de surf, o Clemente Coutinho. O mar estava muito pesado e as ondas “quadradas”, coisa de filme. Fiquei muito feliz em poder estar lá naquele momento vendo aquele show de surf tão de perto.

AS O surf é um ambiente tradicionalmente machista. Foi mais difícil conquistar seu espaço?

MR Sempre me senti muito à vontade fotografando dentro da água e tive alguns mestres da fotografia de surf que me incentivaram no início. Mas de fato já senti várias vezes uma diferença de comportamento por eu ser mulher. Geralmente muitos surfistas me perguntam se eu sou mulher do Marcelo Freire, que é o fotógrafo de surf mais famoso do arquipélago. Não entendo a pergunta, porque acham que não posso estar fotografando para mim? Muitas vezes senti no mar que os homens não botam muita fé por eu ser mulher. Muitos passam e nem sequer comprimentam, ou passam por mim e nem perguntam se a foto ficou boa. Se percebo que tirei uma foto massa, chego no surfista e aviso que fiz uma foto boa. Já me incomodei muito com a hostilidade de vários surfistas. Hoje em dia não ligo mais em relação aos comportamentos machistas e o que verdadeiramente importa é sentir prazer e me divertir fotografando surf dentro da água, em total sintonia com a onda e os surfistas.

AS Como você avalia o crescimento do número de mulheres no segmento da fotografia de surf, principalmente dentro da água.

MR Em 2008, quando comecei a fotografar surf dentro da água, muitas pessoas se impressionavam e comentavam que nunca tinham visto uma mulher fotografar surf na Cacimba do Padre. Fico muito feliz em ver cada vez mais mulheres se aventurando na fotografia de surf, com seus olhares femininos,em busca de espaço em um mundo tão masculino.Tudo que é feito com amor, determinação e dedicação vale muito à pena e tenho certeza que todas as mulheres que se aventuram na fotografia de surf fazem por que sentem muito prazer. O mais importante de tudo é sentir prazer e se divertir.

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