Vento em Ilhabela: André Lanfer explica o fenômeno

Especialista em mudanças climáticas do CPTEC analisa a tempestade e afirma que eventos como esse podem acontecer novamente na região

por Lucas Conejero, 03/05/2019
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Uma forte tempestade, com ventos de um furacão de Classe 1, que ultrapassaram os 100km/h, atingiu o litoral paulista no último dia 28 de abril e, além de milhões de reais em danos materias, causou a morte de três pessoas, duas em São Vicente e uma em Ilhabela.

Nos dias seguintes ao evento, muita gente questionou autoridades e institutos em previsão de tempo, que não teriam informado corretamente os jornalistas e a população sobre os perigos iminentes.

Para entender o que aconteceu, a equipe da Almasurf foi bater um papo com André Lanfer, especialista em mudanças climáticas do CPTEC (Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos), órgão ligado ao INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Segundo Lanfer, os modelos de previsão não “falharam”, como muita gente disse por aí. Pelo contrário, eles funcionaram perfeitamente. A questão foi a impossibilidade de prever com exatidão o resultado das variáveis da tempestade em regiões específicas, como é o caso do canal que separa São Sebastião de Ilhabela.

AS Porque os modelos de previsão não conseguiram prever a intensidade da tempestade?

AL O que houve foi um cavado atmosférico dando suporte à uma frente fria que se deslocava rapidamente. Formou-se um sistema frontal, com amplo desenvolvimento vertical e grande intensidade em baixos níveis - mais próximo da superfície. Os modelos não conseguiram captar a força do vento devido à resolução e à proximidade da costa.

AS E porque esse vento tão forte no canal de São Sebastião?

AL Com o vento em baixos níveis, criou-se um “afunilamento”: uma grande massa de ar tentou passar por um canal estreito. Nesses casos, a solução que a natureza encontra é aumentar a intensidade do vento. Nos dias que antecederam a tempestade, os modelos previram ventos “normais” para a região, de 40 a 60 km/h. Com o estrangulamento, tivemos rajadas de um furacão de Classe 1, que ultrapassaram os 120 km/h. É importante destacar que esse não foi um “evento meteorológico extremo”, mas um “vento extremo”. Isso aconteceu devido ao sistema quente e estacionário das últimas semanas. A prova disso é que a frente não passou do Rio de Janeiro. Ou seja, ela não conseguiu quebrar o centro de alta pressão, não teve força suficiente. Era uma frente “comum”.

AS Mas se foi uma frente comum, porque o vento tão forte, que muitos moradores antigos dizem ser uma novidade? É possível falar em mudanças climáticas?

AL Meteorologicamente falando foi normal, sobretudo nesta época do ano, e apesar dos fortes ventos, a duração do evento foi curta. Sobre as mudanças climáticas, a resposta, infelizmente, é sim. Dentro desse cenário podemos esperar que eventos extremos ocorram com maior frequência e intensidade nos próximos anos.