Érica Prado organiza o movimento

Criadora da página Surfistas Negras, jornalista luta para dar espaço a quem nunca teve a devida atenção da mídia e dos patrocinadores

por Lucas Conejero, 09/07/2019
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Há quem diga que não, mas o Brasil é um país preconceituoso em relação aos negros e no surf não seria diferente. Com 519 anos de história e quase 400 anos de economia escravocrata, seguimos uma triste sina de desigualdade e exclusão.

Mas desde o alvorecer do novo século esse jogo começou a virar. Cansada de sofrer e de pedir ajuda, a comunidade negra reagiu e passou a avançar com suas próprias forças. 

Atualmente, já são centenas - talvez milhares - de expoentes nos mais diferentes setores da sociedade. É uma nova era e apesar de uns e outros, ninguém faz a roda da história girar para trás.

Entre esses expoentes está Érica Prado. Carioca radicada em Itacaré (BA), a ex-surfista profissional resolveu colocar o bloco na rua e usar as plataformas gratuitas das redes sociais para dar espaço a quem nunca teve o devido reconhecimento.

Fundadora do movimento Surfistas Negras, a jornalista trocou uma ideia com a equipe da Almasurf. Foram quase 40 minutos de uma conversa recheada de revolta, sonhos e esperança, resumida na entrevista abaixo.

AS Como surgiu a ideia do movimento Surfistas Negras?

EP Na real, eu sempre sofri preconceito no universo no surf. Um racismo velado, é verdade, mas sofri. As meninas brancas da minha geração, acima ou abaixo de mim, seja no amador ou no Super Surf, tinham patrocínios e viajavam. Enquanto eu mal conseguia pagar três refeições por dia durante as competições, isso quando tinha grana para ir competir. Achava que era falta de talento, falta de sorte. Só que estudei, amadureci e percebi que não era bem isso. Pelo contrário, descobri que eu estava num dos ambientes mais racistas que conheço. Apesar de algumas exceções, como a Suelen Naraísa, nós, as surfistas negras, fomos deixadas de lado, mesmo tendo mais talento do que boa parte das surfistas brancas. Mas a gota d’água foi o lance da Yanca Costa. Campeã da primeira etapa do brasileiro da Abrasp, ela me contou que estava sem grana e sem patrocínio para correr a segunda etapa. Então decidi agir e fiz uma conta para dizer: existem surfistas negras talentosas no Brasil!

AS Um dia desses a Silvana Lima disse numa entrevista: não sou “modelete”, sou surfista profissional….

EP Pois é. Os programas dos canais especializados em esportes de ação, por exemplo, tem alguma negra em evidência? Tem um programa para a Silvana Lima? Não! As negras, as nordestinas, elas têm talento e geralmente não tem oportunidades.

AS Neste contexto de oportunidades e patrocínio, a Tainá Hinckel é uma exceção?

EP Sim. Ela é um exemplo, surfa desde pequena e tem investidores desde muito cedo. O fato dela ter viajado pra outros países trouxe outra bagagem, ela tem autoconfiança. Isso tudo está interligado ao suporte que as surfistas recebem da família, dos apoiadores, dos patrocinadores e principalmente da mídia. Faz toda diferença!

AS E qual será a sua estratégia para ajudar a mudar esse cenário?

EP Muita gente quer ajudar o projeto. Estou criando um banco de dados de todas as meninas que estão sem patrocínio. Já consegui alimentação para uma, hospedagem para outra e vamos indo. O plano é promover um grande encontro para surfistas negros e nordestinos no Brasil. Nele, apresentar a história das surfistas negras pioneiras, que são ícones, mas não tiveram a devida visibilidade. Quero que as pessoas entendam o que esta acontecendo e que elas enxerguem a realidade. Enfim, se a realidade atual não te incomoda, você não está entendendo nada.