Daniel Friedmann, passado, presente e futuro

Campeão do Waimea 5000, evento que abriu as competições internacionais no Brasil, carioca Daniel Friedmann fala de sua história ao blog da Almasurf.

por Gerson Filho, 09/10/2017
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Ícone de uma geração de surfistas que deu origem ao que conhecemos como surf profissional brasileiro, Daniel Friedmann tem lugar cativo na história do esporte.

Estiloso, objetivo, radical, veloz e low profile são alguns dos adjetivos aplicados a Friedmann.

Suas performances nos lendários campeonatos Waimea 5000, do qual foi vencedor, seu estilo polido de surfar em Sunset de backside e, claro, suas manobras à frente de seu tempo no sempre lembrado Pier de Ipanema, o alçam à primeira divisão do surf.

Daniel é o tipo do cara perfeccionista e suas pranchas, mesmo utilizando as mais modernas técnicas de fabricação, conservam um toque personalizado.

Atualmente morando e shapeando em sua casa na Praia da Macumba, Zona Oeste do Rio de Janeiro, ele segue surfando e produzindo vários tipos de pranchas.

Além de shapear, Friedmann faz questão de participar de todas as fases da produção de suas pranchas: laminação, colocação de quilhas, lixação.

“Hoje faço menos pranchas, com uma qualidade maior. Meus clientes prezam por isso. Muitas das vezes eu fabrico a prancha por inteiro”, diz.

Atualmente Daniel exporta pranchas para o Hawaii, Israel, EUA, entre outros lugares mundo afora.

Ele também trouxe de volta ao mercado as parafinas “Ocean Ride”, fórmula desenvolvida há décadas e guardada a sete chaves.

Friedmann também é um dos protagonistas do documentário que está sendo produzido por Rosaldo Cavalcanti sobre o Waimea 5000, lendário evento vencido duas vezes por ele.

Nesta entrevista exclusiva ao jornalista Gerson Filho, Friedmann fala de sua longa e belíssima trajetória no esporte.

Como é sua relação hoje com o surf?

Hoje continuo surfando e, às vezes, participo de eventos na minha categoria, normalmente Super Legends. Trabalho na construção de pranchas, SUPs, sleds e rescue boards e agora voltei a fabricar minha parafina a Ocean Ride.

Que tipo de percepções e aprendizados de vida, o surf lhe trouxe?

O respeito ao próximo e a superar meus limites

Fale um pouco sobre seu trabalho como shaper.

Comecei a shapear cedo, por volta de 1973. Não era muito fácil ter o equipamento que você queria para surfar. Eu precisava de boas pranchas, e como já trabalhava fazendo consertos, me aventurei a shapear. Naquela época, eu já planejava morar no Hawaii, onde acabei trabalhando em uma fabrica de pranchas com George Downing e Ben Aipa, dois renomados shapers havaianos.

Ali, adquiri as informações para desenvolver meu trabalho, referências que uso até hoje. Em 1978 - ao participar de um evento em Santos - tive a oportunidade de conhecer os primeiros trabalhos feito com EPS e resina epóxi, o que me atraiu bastante por sua leveza. Desde então, venho trabalhando com esse material, que hoje representa 90% de minha produção.

Tem desenvolvido algo novo em termos de pranchas, materiais etc?

Tenho trabalhado em novas formas de revestir as pranchas, procurando dar mais resistência e durabilidade. Venho abrindo o mercado externo para nossos produtos. As pranchas estão sendo muito bem recebidas em Israel, no Hawaii também nossa produção está bem legal, abrimos novas frentes em Miami e acredito que esse é o caminho: globalizar o trabalho.

Além das pranchas, você está voltando a fabricar parafinas. Pretende lançar outros produtos?

Sim. Estamos desenvolvendo uma linha de acessórios para surf e a parafina é o primeiro produto que estamos lançando. Já fiz parafina nos anos 1980, e refizemos a fórmula para as exigências atuais. A linha se chama Ocean Ride. Teremos parafinas para as diferentes temperaturas de água.

O Brasil chegou ao topo do mundo no surf. Temos dois campeões mundiais, e vários outros que podem chegar ao título. Porém não temos um circuito brasileiro de surf profissional. A que se deve esse "gap" em sua opinião?

O Brasil é um pais em que o surf cresceu e temos atletas, shapers e produtos de nível internacional, temos uma certa organização, com federações regionais, confederações. Diria que temos tudo, mas na verdade falta o principal, uma visão comercial para vender os eventos e não se limitar às marcas de surf.

Quem compra o evento, espera um retorno e para que esse retorno seja efetivo, precisamos de pessoas que tenham a habilidade de fazê-lo alcançar o público em geral e não apenas a comunidade do surf.

Nossa divulgação é muito fraca para o potencial do esporte

Ainda não há um mercado de surf cultura consolidado no país. Você consegue vislumbrar uma mudança nesse sentido: comercialização de livros, exposições, leilões de pranchas?

Acho que essa cultura está se iniciando em nosso país. O surf é um esporte novo e vem amadurecendo bastante. Acredito que estamos começando uma história e já existem várias ações nesse sentido.

O que você achou do surf ter se tornado um esporte olímpico? Acha que essa é a vocação do esporte?

Sim acho importante, e com certeza a piscina de ondas é uma realidade que vai mudar muito a forma que o surf irá crescer nos próximos anos. Teremos duas frentes de desenvolvimento: no mar e em ondas artificiais.

Quais foram os caras que te influenciaram como surfista?

Gerry Lopez, Lery Bertleman e Jeff Hackman.

Você filmou recentemente o documentário sobre o Waimea 5000. Fale um pouco sobre a produção, já tem previsão de lançamento?

Sim, o Waimea 5000 foi a alavanca que fez o surf brasileiro se desenvolver tão rapidamente. Sem o intercâmbio proporcionado pelo evento não teríamos evoluído tanto. Demoramos a ter o primeiro campeão mundial, contudo crescemos exponencialmente, e tudo apontava para essa direção, a do titulo mundial e a consolidação do surf brasileiro.

Não sei quando o documentário vai estrear, mas assisti a uma boa parte e está bem interessante, especialmente porque estamos relembrando um pouco da nossa história e esse será um documento importante para o registro daquela época.

Outro filme que você participou recentemente foi o do Picuruta Salazar. Na sua opinião, o que ele representa para o surfe brasileiro? Você lembra da primeira vez que o viu surfando?

Sim. Não lembro qual foi a competição, mas seu jeito, seu estilo de surfar são inconfundíveis, não dava para passar despercebido. Sempre tive uma relação boa com o pessoal de São Paulo, mesmo sendo do Rio. Acho que ele é um exemplo de dedicação que lhe proporcionou excelentes resultados e um amadurecimento que, como surfista profissional, adquiriu respeito pelo Brasil e exterior.

Um amigo que não perde a oportunidade de arrancar uma risada de você com uma brincadeira, um ótimo surfista que sem dúvidas tem um grande espaço na história do surf brasileiro.

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