Mike Coots, sobrevivente do ataque de tubarão que virou herói

Falar é fácil. Difícil mesmo é agir. Mas, para Mike Coots, isto não se aplica.

por Redação Almasurf, 16/01/2018
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“Muitos pensam que eu sou um idiota”, diz Mike Coots, pressionado pela reação comum das pessoas ao ouvirem que ele defende a conservação de tubarões. Mike, como você pode ver, perdeu metade da sua perna direta devido a uma mordida de um tubarão tigre que levou em sua casa de praia em Kauai, no ano de 1997. Na época, Mike era um promissor bodyboarder e tinha pouco conhecimento sobre o seu agressor. “Nós víamos tubarões quando estávamos mergulhando e ficávamos realmente em pânico, mas era só isso que sabíamos sobre esses animais. Eu sempre pensei que se fosse ter problemas com tubarões seria na pesca submarina, nunca surfando. Entendo aquelas pessoas que acham que eu deveria ser anti-tubarões. Mas se você surfa ou mergulha, você acaba entendendo a ciência que está por trás de tudo isso”.

A simpatia de Mike com esse animal pode ser estranha para algumas pessoas, mas não para ele. “Não faz sentido. Se você tem a oportunidade de ajudar uma espécie à beira da extinção, então, você deve entrar nessa e ver se você consegue tirar algo bom disso”.

O “algo bom” que Mike está falando é sobre criar uma proibição para a retirada das barbatanas de tubarão, uma pratica que visa capturar estes animais para apenas remover as suas barbatanas. “Na China, a sopa de barbatana de tubarão é uma iguaria”, diz Mike, “como steak e lagosta na América e na Austrália”. A barbatana era realmente popular há uns cem anos. Ela oferece pouco valor nutritivo, mas mesmo assim tem se tornado um símbolo de status e vem impulsionando o comércio. Como grandes predadores, o resto da carne dos tubarões é cheia de mercúrio, e basicamente, não-comestível. Os pescadores fisgam o tubarão, removem as suas barbatanas, jogam o corpo ainda vivo no mar e o animal sobrevive por alguns dias, mas como são incapazes de se moverem normalmente, morrem lentamente por asfixia ou comidos por outros predadores. Se pudermos conscientizar as pessoas na Ásia, com muita esperança, a demanda irá cair e a matança vai parar. A saúde de nosso oceano é muito mais importante do que uma tigela de sopa. Mas isso tem que vir da consciência das pessoas, não através de leis”.

Uma postura de proteção como a de Mike não vai ser universal entre aqueles que já sofreram com ataques do predador. Muitas vítimas de ataques de tubarão defendem a caça do animal. “Eu realmente consigo conversar com vítimas que pensam o oposto do que eu penso, e que querem ver os tubarões mortos”, ele diz. “Cada um tem um jeito diferente de reagir ao trauma, mas para mim, os tubarões são a parte crítica do nosso ecossistema marinho. Todo mundo olha as baleias e as lontras marinhas e acham elas importantes. Mas porque o tubarão fere os humanos eles não são vistos do mesmo jeito”. Mike nunca foi uma pessoa envolvida nos assuntos ambientais antes do ataque, mas depois do dia fatídico ele mudou totalmente a sua educação e mentalidade. “Eu fui procurado por todos os tipos de grupos ambientais e aprendi a ciência por trás de tudo. O fato é que os tubarões são o topo da cadeia alimentar e desempenham um papel fundamental na composição e diversidade da vida marinha. Se você tirar eles de lá, toda a rede natural será afetada”.

Não foi só a consciência de Mike sobre o ambiente marinho que mudou. Seu estilo de vida também. “Bem, eu era um bodyboarder”, ele ri. “A mídia do surfe sempre tenta fazer parecer algo desafiador, mas a verdade é que depois do ataque eu mudei para Santa Barbara para ir para uma escola de fotografia. As ondas de lá são pointbreaks ruins para bodyboarders. Então, comecei com o longboard e depois passei para as pranchas menores”.

A fotografia veio para Mike como uma forma de tira-lo do tédio, mas ela representou muito mais do que ele imaginou. “Eu tive que ficar muito tempo sem entrar na água, então, um amigo me deu uma câmera para eu poder me divertir na praia”, Mike explica. “Eu estava tentando achar um emprego e a ideia de ser pago para fotografar surfistas foi bem atrativa. Em pouco tempo, me matriculei no curso de fotografia. Geralmente, é um “tabu” fotografar pelas redondezas de Kauai, mas tive sorte o suficiente para criar laços com os melhores surfistas do mundo e conseguir realizar o que queria”.

“Andy Irons foi, facilmente, o surfista mais incrível que eu já fotografei. Só de ir até a praia com ele você sente que algo louco pode acontecer a qualquer momento. Andy tinha alguma coisa nele que me fazia sentir que tudo era possível, que qualquer onda que ele pegasse poderia render uma foto de capa de revista. Ele sempre fazia várias perguntas sobre como estava indo a sessão, o que estava legal. Ele tinha interesse em saber também quem eu era, da onde tinha vindo e realmente me deu muito apoio. Essas lembranças vão ficar para sempre”.


Mike não foi a única vítima de ataques de tubarão em Kauai e nem vai ser a última. Ele está usado a experiência que teve para ajudar pessoas que tiveram um trauma similar. “Bethany Hamilton é como se fosse da minha família e eu sou um membro do conselho de sua fundação, Friends of Bethany – Amigos de Bethany. Nós ajudamos crianças portadoras de deficiência e pessoas que perderam membros em circunstâncias traumáticas. O dia em que Bethany foi mordida por um tubarão, seu irmão me ligou aos prantos pensando que ela fosse morrer e perguntou se eu poderia encontra-los no hospital. Fui correndo até o meu carro e dirigi até lá. Nunca vou esquecer aquele olhar quando ela me viu. Foi um sentimento surreal, mas sabia que ela ficaria bem”.

“Eu tinha muitas perguntas para fazer quando perdi um membro e sei como é a sensação daqueles que passam por isso. Então, sempre tento ajudar as pessoas a acharem a calma interior e verem que perder um membro não é o fim do mundo. Você pode fazer tudo o que uma pessoa sem deficiência pode fazer”.

“Coisas acontecem com todo mundo”, ele sorri, “saber como reagir em tal situação é o que determina quem você é. Eu não me arrependo de ter surfado aquele dia ou de ter sido mordido por um tubarão e perdido uma parte do corpo. Isso trouxe muitas oportunidades, aventuras e novos relacionamentos com pessoas que eu nunca teria conhecido de outro jeito. De certo modo, me sinto sortudo”.

Fonte Red Bull