Boas ondas no cardápio do carioca Jean des Bouillons

Em entrevista exclusiva, Jean des Bouillons fala de sua vida de free surfer e de chef de cozinha em Hossegor, França.

por Alceu Toledo Junior, 07/02/2018
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O carioca Jean des Bouillons tem 29 anos vividos intensamente entre as ondas do Rio de Janeiro e da França, onde vive atualmente. Além da paixão pelo mar,  herdada pelo pai Jean Noel, lendário shaper dos anos 80, ele também divide o interesse por gastronomia.

Chef de cozinha, autor de pratos requintados da alta culinária internacional, trabalha duro para poder levar sua vida de waterman apaixonado pelo mar: "Na minha cabeça, tenho a missão de passar a essência de estar no mar para me divertir, compartilhar o momento de deslizar uma onda com os amigos, de sorrir e de estar feliz ao ver a galera toda pegar boas ondas", resume Jean sobre sua visão do surf.

"Não quero disputar para ser o local ou o melhor. Surf, acima de tudo, é uma forma de união, de amor mútuo, de sorrisos. E eu gostaria de passar essa mensagem mundo afora. Sou surfista há mais de 20 anos e, graças a Deus, sempre fui bem recebido em todos os lugares por onde passei", conta.

Como tantos outros, é um surfista sem patrocínio. "Ainda não descobri a mágica", brinca o surfista. 

Apesar disso, o surf sempre foi tudo para ele. "A minha família é surf e temos uma história de gerações. Meu pai é uma lenda e como toda lenda não teve vida fácil. Valorizo tudo isso a cada dia em que entro no mar. Não sou rico, mas sou um privilegiado. O surf me deu amigos incríveis e momentos históricos. Só tenho a agradecer", explica.

Na conversa a seguir, ele revela mais detalhes de sua estratégia para unir trabalho e boas ondas em família.

Como está a vida na França?

De uma forma geral, a vida na França é muito boa. Levo uma vida simples numa cidade pequena e tranquila. Tenho boas ondas e segurança para toda minha família. Muito diferente da adrenalina do Rio de Janeiro.

Por que mudou de ares?

Sinceramente, a vida estava muito difícil para mim no Rio. Não conseguia patrocínio. E um cozinheiro não ganha bem por lá. Eu sempre amei viajar o mundo e conhecer lugares novos. Hoje, aqui eu tenho certeza que pelo menos uma vez por ano vou conhecer um outro país e isso me fascina.

Mas a minha decisão de sair de vez veio logo depois de ser assaltado na esquina de casa, quando voltava da faculdade. Um sujeito drogado, fora de si e armado, me abordou, levou meu celular e o meu material de cozinha. Acordava todos os dias às 4 da manhã para trabalhar até 18 horas. Ia pra faculdade e chegava em casa próximo de meia noite, pra recomeçar tudo no dia seguinte, Quase morri por nada.

E as ondas por aí?

Vivo em Hossegor, um pico bastante conhecido pelos bons tubos.

Porém, existe uma enorme variedade de ondas por aqui, de beach breaks incríveis até fundos de pedra perfeitos. Apesar de ser frio, não só a França mas toda a Europa é abençoada pelas ondas.

E qual o seu trabalho atual?

Desde que cheguei aqui tenho trabalhado, e muito, como chef de cozinha. Porém, os trabalhos aqui são temporários, de acordo com as épocas de férias. Sobra tempo pra me dedicar em tudo. E, agora que meu pai está aqui, estamos começando a trabalhar na montagem de nosso ateliê, tanto para pranchas quanto para trabalhos com madeira.

Não tem saudades do Brasil?

Sim, morro de saudades. É muito difícil abandonar tudo e todos à sua volta para recomeçar do zero sozinho uma vida nova.

Mas infelizmente não tem como trocar toda a qualidade de vida e segurança que posso proporcionar à minha família aqui para voltar à vida no Brasil .

E o seu projeto de evoluir como chef de cozinha?

Como disse, já trabalhei bastante e estou um pouco cansado disso.

Cozinha requer muita dedicação, paixão, e te esgota fisicamente - somente um cozinheiro sabe do que estou falando. 

E eu ainda não quero criar raizes. Ainda tenho projetos de viajar e surfar ondas longas ao redor do mundo. Pretendo estar mais ao lado de consultorias do que pensando em montar o meu negócio dentro de uma cozinha.

Amo cozinhar, mas amo ainda mais o meu lado surfista, onde fica a história da minha família. Pode ser que isso mude, nunca sabemos.

Como surgiu este lance de gastronomia em sua vida?

Eu sempre gostei de cozinhar e buscava uma profissão em que eu pudesse viajar e ter um emprego em qualquer lugar do mundo. Bom, a cozinha é universal e todo mundo precisa comer. Só não imaginava que dava tanto trabalho! 

Filho de shaper, como são suas pranchas?

É sempre uma vantagem, ainda mais com alguém tão experiente quanto o meu pai.

Sempre conversamos bastante e estou sempre perto quando fazemos minhas pranchas. Somos um pouco teimosos, porém, sempre nos entendemos. E ele não tem ciúmes caso eu venha a usar uma outra prancha. Mas, no final sempre prefiro as pranchas do meu pai, ele me conhece melhor que ninguém.

Mudar de país evoluiu o seu surf?

Muito!

Hoje surfo muito melhor as ondas tubulares. E evolui bastante em ondas grandes, tenho me dedicado e estou adorando. Sem contar que aqui a qualidade das minhas pranchas é outra, o que ajuda muito.

Sua família também mudou pra França ou você viajou sozinho?

No início, vim sozinho. Não falava francês e cheguei com a cara e a coragem. Com o tempo, me estruturei e todos vieram pouco a pouco.

E quando poderemos ver o Jean novamente pelo Rio de Janeiro?
Se tudo der certo, todo verão estarei aí. Quero fugir do frio!

 

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