Flamboiar flutua num ambiente digital mágico

Entrevista exclusiva com o fotógrafo e videomaker Raphael Tognini revela o conceito por trás da Flamboiar, um site voltado à cultura e à contracultura do surf.

por Alceu Toledo Junior, 13/04/2018
follow

No ano passado, publiquei um vídeo que me deixou chocado: O Surfista da Monoquilha Vermelha!

Inspirado num personagem controverso das crônicas policiais do anos 60, o famigerado Bandido da Luz Vermelha, o curta conta a história de um surfista que  "desencanou de querer ser o maioral e está cagando pros estereótipos surfísticos", de acordo com a sinopse.

Interpretado pelo santista Andrew Serrano, o surfista da monoquilha vermelha "avacalha e se diverte!".

Totalmente fora do comum e dos padrões das produções surfísticas, pesquisei a autoria e foi uma agradável surpresa descobrir que se tratava do filho do conceituado shaper Kareka, da Shine Surfboards, e da surf repórter Cris, uma das pioneiras do boletim de ondas do Guarujá, e que havia trabalhado comigo no site Waves, desde o lançamento do portal em 1998.

Estou falando de Raphael Tognini, 32 anos, nova geração desta mídia web, criador juntamente com Carolina Bridi, também 33 anos, do belíssimo site Flamboiar.

Ele é nascido e criado no Guarujá, "com o berço literalmente colocado no meio de uma fábrica de pranchas", diz.

Formado em rádio e TV, Rahapel é surfista "desde que começou a andar". Com viagens ao Peru, Chile e Hawaii, Raphael é fotógrafo e videomaker. Segundo ele, é um cara  "inquieto".

"A cada ano que passa fico mais eclético e agora um pouco mais tropical", explica.

Ele pode ouvir o hardcore clássico do Black Flag pela manhã e Caetano na parte da tarde, ou alternadamente, ou não, explica. Em termos de literatura, ele dropa todas e atualmente está dexavando o livro A Erva do Diabo, do peruano Carlos Castaneda.

Para ele, surf é "tudo sobre o nada e vice-versa". Ele também supõe que depois da publicação desta entrevista, vai achar que deveria ter falado mais sobre um monte de outras coisas.

Carolina Bridi, sua parceira, é do interiorzão de Santa Catarina e sempre sonhou com o Hawaii.

"Perseguindo histórias, me formei em jornalismo. Fiquei cada vez mais próxima da praia até ter minha história mesclada com as aventuras que eu conto", explica.

"Além de contar histórias com palavras, descobri no vídeo mais uma maneira de colocar para o mundo, o mundo que enxergo. Adoro longboards, glass pigmentado, acredito em surf divertido, boas músicas, ótimos livros, passo sempre protetor solar e apoio veementemente a ideia de que a vida merece bons momentos de sono e descanso", revela.

Como filosofia, a dupla acredita que o surf é feito de uma mistura de experiências, de acordo com o texto publicado no site Flamboiar:

"Cada drop carrega o que vemos, lemos, falamos e sentimos sobre o surf. Atitudes definem um autêntico surfista e autênticos surfistas definem a cultura que está ao nosso redor. Queremos contar sobre nossas ondas, mas as escolhas que fazemos, dentro e fora do mar, nos levam à necessidade de discutir muito além da performance. Acreditamos que o surf é feito de uma mistura de experiências e que experiências devem ser vividas plenamente. Precisamos falar sobre surf, ele é parte nós".

Improvável, inesperado e surpreendente, o Flamboiar está acima de qualquer definição ou conceito. Sem  preconceitos, é uma novidade que estava fazendo falta neste mundinho do surf. 

A seguir, um bate papo com Raphael Tognini, uma das mentes criativas do Flamboiar.

Como surgiu a ideia do site?

A Flamboiar é feita pela Carol Bridi e por mim. A gente chegou numa conclusão de que a ideia estava encubada na gente, e um dia ela simplesmente explodiu. Surgiu de um lance de vivência mesmo, o que está publicado ali é um retrato da nossa vida.

Além de bonito, o site tem boas ideias e uma proposta cultural diferente. Essa inspiração toda vem do oceano?

Opaaa, obrigado!! Acho que a inspiração inicial vem do mar sim e parte para um lado de mostrar o quanto o surf pode transcender o ambiente líquido. Existe um universo muito rico que orbita o surf, são muitas pessoas, histórias incríveis, experiências... a gente baseia muito do conteúdo nisso, de mostrar que o negócio vai beeeem além de campeonatos e campeões. É incrível ver como nossa vida no surf é legal e poder passar isso pras pessoas.

E como surgiu o seu interesse pela fotografia?

Surgiu de pivete. Eu sempre observei mais e falei menos. Eu ganhei uma daquelas câmeras descartáveis, aí juntou esse lance de observar e cá estamos!

De que maneira o trabalho de shaper do seu pai e de sua mãe repórter influenciam no seu site?

Cara, acho que foram os combustíveis essenciais. Eu nasci e cresci numa fábrica de pranchas. É um ambiente cheio de histórias, uma parte visual muito forte e logicamente com surf em todos os lados. Eu lembro de ficar sentado entre a sala de shape e o glass quando era criança, com meu pai e o glasser conversando, cada um em uma sala, som tocando... acho que ali já comecei a enxergar as coisas como imagem, filme. Era tipo assistir um documentário ao vivo.

Minha mãe escrevia para as revistas de surf da época, depois ela foi a primeira a fotografar para os boletins da internet e eu comecei a fazer junto com ela também. Foi ali que começou a ser firmar a história toda. Acho que é bem visível esse background em nosso trabalho. Tá cheio de influências da vida de cada um de nós dois ali no que fazemos.

Conte um pouco sobre a incrível história do surfista da monoquilha vermelha.

Além do surf, a gente tem muita referência de cinema, de jornalismo, literatura, música. Um fator que a gente preza muito por aqui é a contracultura no surf e um dia estávamos vendo algumas coisas sobre cinema marginal e bateu esse lance do Bandido da Luz Vermelha. A gente brincou que seria legal fazer o Surfista da Monoquilha Vermelha e na hora percebeu que seria realmente legal, ahahaha.

A escolha do Andrew pra gente foi a coisa mais lógica. Além de surfar muito, ele tem uma verdade bem forte de contracultura. Queríamos um filme que resgatasse um lado mais contestador do surf que foi se perdendo um pouco, e também ter aquilo que a gente falou antes, de dar uma densidade maior de personagens pro universo do surf. Sair dessa coisa do cara que só surfa e, depois que ele sai da praia, parece que desligam e guardam no armário.
O resultado deixou a gente bem feliz, é um filme que rodou legal. Ganhamos prêmio de revelação no Mimpi, passou no SAL em Lisboa, no Lagoa Surfe Arte, no Eau Salée, rolaram exibições públicas em Santos, São Paulo, Ubatuba e Maresias.
Foi legal ver chegando em pessoas que ainda não tinham acesso a coisas desse tipo.

É possível monetizar um projeto que leva em consideração a cultura do esporte, sem ter serviços de previsão ou de webcam etc?

É possível sim. Não é fácil, mas rola. A mídia em geral tem tido dificuldade em monetizar nesses últimos tempos, mas acho que estamos no caminho certo. Claro que ainda não atinge o nível de monetização de grandes portais, até pelo fato de que muitos anunciantes ainda enxergam só pageviews e não público potencial. Ainda existe uma mentalidade muito forte de quantidade. Muitos anunciantes ainda não conseguem perceber que é melhor acertar em cheio no público que se almeja do que apostar em grandes números mais indiretos.

Acho que quando você faz um trabalho bom e vive realmente aquela verdade, as coisas se encaixam e vão rolando. Nós estamos na praia - somos um dos poucos veículos de surf na praia hoje. Ou seja, estamos bem onde o surf acontece, e não precisamos tirar o surfista do ambiente dele pra fazer uma boa entrevista. Até nosso escritório fica dentro de uma fábrica de pranchas. Não temos o boletim, até porque achamos que o público já está bem abastecido disso, seja com site, com app, etc. Por outro lado, existe um público carente de conteúdo original. Aqui a gente cria e produz originalmente desde a concepção da ideia até a hora de soltar pro mundo. Enfim, não temos o boletim, mas temos o diferencial de estar ali onde as coisas acontecem de fato.

O que podemos esperar de novidades e novas atrações no Flamboiar?

Agora em 2018 entram algumas séries novas em vídeo, vamos começar também algumas séries de fotos, matérias, e vão rolar muitas histórias também, em texto, vídeo, fotos. Nossa ideia este ano é intensificar esse conceito que trouxemos de falar sobre o surf e estar onde ele acontece. E tem mais surpresa jóia que ainda não podemos contar! heheheh

Quais sites você curte navegar e quais as influências do seu trabalho?

Vixe, influência aqui vem de todos os lados. Aqui no QG tem sempre música rolando, algum livro novo, tem prancha entrando e saindo, alguém aparecendo... a gente se inspira em muitos lados, vai da New Yorker a Surfer, passando por instagram, blogs, coisas que não têm nenhuma ligação óbvia com o surf. A gente tem uma fome grande de cultura e de surf.

O novo site Moist vem com uma atitude mais underground e conteúdos próprios, num projeto do jornalista Steven Allain. Como você analisa o papel da web nesta segmentação do surf, com novidades cada vez mais interativas?

Acho extremamente válida a segmentação, cada um vai pro lado que mais agrada trabalhar e para o público isso acaba se traduzindo de uma forma complementar. A gente tem uma linha de cultura, de essência, de criar junto com os surfistas o filme de ação, contar histórias, essa pegada de mostrar como é o mundo onde esse surf realidade acontece.

Daí tem o Moist, com uma linha mais voltada a campeonatos, atletas de competição, fazendo isso de uma maneira atualizada. Tem o pessoal do Surfari que vai total em outro caminho de uma forma super competente e com uma identidade bem marcante também.
Pra gente é legal essa diversidade, abre espaço pra mostrar a verdade que acontece em cada canto. Essa é uma característica do nosso tempo, de pluralidade consciente, de cada um saber a importância do outro e não ter rivalidade. Acho que nesse sentido, a nova safra de mídia especializada é muito feliz, porque o espaço é ilimitado, o que cria um ambiente saudável tanto pra quem faz quanto pra quem consome o conteúdo.

Se pudesse aproveitar conteúdos de outros sites, o que você gostaria de incluir no Flamboiar?

Com certeza a Encyclopedia of Surfing. Korduroy também seria jóia.

Clique aqui para acessar o site Flamboiar

Facebook

almasurf
almasurf
almasurf
almasurf
almasurfalmasurfalmasurfalmasurf